quinta-feira, 29 de junho de 2017

Não superexponha a sua felicidade



Não se trata de esconder a felicidade a sete chaves, pois um dia nem você conseguirá achá-la. Mas não a superexponha, como um troféu ou um produto na vitrine. Isso é tudo, principalmente vaidade e euforia, menos felicidade.  Se você possui um amor correspondido, preserve-o. Se tem tido muitas conquistas, proteja-as. Se é feliz, agradeça. Em tempos de culto às redes sociais, viver da forma mais anônima possível pode lhe trazer mais ganhos do que perdas. 
     Se você não percebeu, infelizmente a felicidade - ainda que seja apenas o seu estereótipo - às vezes incomoda quem não consegue ou não sabe ser feliz. Pode despertar a dor, a inveja e a cobiça. Sim, cuidado, existem ladrões de felicidade capazes de furtá-la sorrateiramente. Eles podem ser estranhos, conhecidos e até mesmo você, quando o ego ou a ambição não te deixarem enxergar o que basta para ser feliz.
     Sabe, muitas vezes a felicidade se esconde em atitudes e momentos triviais e inesperados, precisando apenas da nossa atenção, da nossa entrega e de privacidade. Como diz Antoine de Saint-Exúpery, em O Pequeno Príncipe: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Mas a impressão é que cada vez mais pessoas ignoram isso, preferindo gritar e esbofetear a sua pretensa felicidade na cara dos outros. Como se ela dependesse de audiência.
     Para esses, ser feliz é ter uma casa luxuosa, um carro possante, roupas elegantes, viagens caras, aparência exuberante... e ah, claro, um amor idealizado. Tudo bonito, perfeito, pronto. Sem decepções e frustrações. O principal, mais do que viver, parece ser exibir a todo o momento essa felicidade, ainda que provoque amargura em quem não possui a mesma fachada, essa casca que se esfarela quando não há o que a sustente. É aí que se estabelece a mórbida simbiose entre os que gostam de ser invejados e os que invejam
     Nada contra sucesso, dinheiro, conforto. Pelo contrário.  No entanto, esses são meros e perecíveis acessórios de felicidade, suas circunstâncias externas – causas ou consequências – que colaboraram para uma pessoa ficar feliz ou mais feliz, mas também podem evidenciar a infelicidade diante de um vazio existencial.  A felicidade duradoura vem do que é espiritual e emocional, e isso é impalpável, inexplicável e invisível. Como o amor, o bem-estar, o autoconhecimento e a paz interior, estes sim essenciais.
     Fazer planos e obter conquistas profissionais, pessoais e materiais  alimentam a nossa sensação de felicidade.  Mas supervalorizar e expor isso pode nos tornar alvos de energias negativas, comentários e pensamentos de quem torce para que tudo dê errado. Mesmo sem intenção, o desânimo e a infelicidade alheios são capazes de criar um campo magnético ao redor de quem está próximo, arrastando os mais influenciáveis para o epicentro de seus terremotos.
     Quem é ou pretende ser feliz não vive fazendo alarde, para dar satisfação de seus passos ou buscar incentivo. Repare: as pessoas realmente felizes são as mais discretas, as que preferem realizar de forma silenciosa os seus objetivos ao invés de propagá-los aos quatro ventos. Até mesmo viver os desacertos e a tristeza, com intensidade e longe dos holofotes, faz com que elas aprendam a se reerguer e dar valor à felicidade, se auto motivando constantemente.
     Não podemos perder o foco e nem correr riscos que nos afastem da felicidade genuína. Ela deve ser compartilhada com quem desfruta da nossa intimidade. E cultivada como o nosso mais sagrado relicário.  

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay





sexta-feira, 2 de junho de 2017

Indiferença, silêncio que diz muito


A indiferença, tão comum nesses dias de pessoas apressadas, frias ou que preferem maquiar suas emoções, é silêncio que diz muito e cala fundo em quem a percebe. O indiferente pode ser alguém que tem opinião mas preza a neutralidade. Assim não toma partido, não se compromete, não se aborrece... Pode ser também aquele que não se motiva, não percebe, não sente... Ou finge que não sente.
     A grande questão é o que está por trás desse sentimento que mais parece ausência de sentimento, porém é a presença de várias emoções disfarçadas. Ele pode denotar desinteresse, isolamento e até apatia, causados pela falta de tempo ou de confiança e mesmo pela depressão. Pode ser apenas uma sábia decisão, para não acirrar uma briga, uma inimizade, mas também sinalizar fuga, defesa ou desprezo pelos outros.
     Em épocas de emoções voláteis e volúveis, que surgem e somem com toques na tela do celular, pessoas automatizam, condicionam e banalizam suas reações e relações. Vivem extremadas com o que e quem não lhes dizem tanto respeito, mas indiferentes com aquilo que mais deveria lhes importar.  Vivem reféns do medo, no limite entre a adrenalina e a anestesia.
   Temos medo da violência, do fracasso, da rejeição, da ingratidão, deixando de nos entregar aos nossos melhores sentimentos e sonhos. Reagimos instintivamente ao colocar para fora nosso lado mais sombrio, enquanto usamos a razão para represar as nossas emoções mais luminosas.  Nos acostumamos com a impotência, a incredulidade e a inércia, nos dessensibilizando aos poucos.
    Ser indiferente às vezes é estratégia de sobrevivência de quem já sofreu ou não suporta ver sofrimento. Muitos têm vergonha ou não conseguem dizer o quanto  admiram ou gostam de alguém ou de algo, ostentando um ar blasé, de tédio, de tanto faz como tanto fez... Há gente que carrega por aí a sua falta de expressão forjadas com doses de decepção, cinismo ou pílulas tarja preta. 
     A grande diferença da indiferença não está somente quanto ao alvo, mas principalmente em sua real intenção. Há quem ignore uma cena de violência e injustiça na rua, a sua frente, assim como as conquistas ou dificuldades de um amigo ou um parente.  A gente até espera que estranhos ou conhecidos nos sejam indiferentes, por mais que tenham razões para agir ao contrário, mas quando isso vem de quem achamos que nos estima pode ser um sinal.      
     A indiferença camufla emoções conflitantes: inveja, ressentimento, ciúme, raiva... ainda que haja bem-querer. É reflexo de uma sociedade egocêntrica e consumista, que privilegia o instantâneo e descartável, além de estimular a competição entre as pessoas. Tudo isso tornou a reciprocidade a regra de ouro atual. Quem dá um input já espera pelo feedback. Se isso não ocorre, alimenta a velha história de dar um gelo no outro e aí a indiferença vira birra de criança ou retaliação vingativa.
    Todo mundo gosta de atenção e de ser correspondido  e chega uma hora em que não adianta insistir para ouvir nossos sentimentos e atitudes ecoando no vazio. Mas vale analisar se o desinteresse do outro é pontual, se ele está indiferente consigo mesmo, com problemas, sem tempo ou em outra sintonia. Pense bem antes de apelar para a indiferença, pois ela fere, distancia e é um ato de desamor talvez pior que o ódio, pois aprisiona sob a casca do descaso. 
    Se você não tiver o seu valor reconhecido por causa da indiferença, não se abale. Encare a frustração de suas expectativas como lição para não alimentá-las além do limite saudável. Acredite no seu potencial mesmo sem a aprovação alheia, fortalecendo o seu equilíbrio emocional e tendo a certeza de que o problema não está em você. De quebra, lembre-se que muitas vezes impera o ditado "Quem desdenha, quer comprar"...   
     Não seja indiferente só para dar o troco. Não entre nesse jogo de sempre esperar algo em troca. Ria, chore, abrace, beije, elogie,  se tiver vontade. Faça a diferença sendo quem você é de verdade! 

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay






quinta-feira, 25 de maio de 2017

Perdoar é terapia que cura e engrandece


Perdoar faz parte de um processo transformador de terapia, que cura e engrandece. Não à toa essa nobre palavra deriva do latim perdonare - de per, “para”, mais donare, “doar”. Doa-se o que se tem de melhor, especialmente a esperança, para que a dor um dia passe e a decepção ensine. Quem perdoa se cansa de sofrer e lamentar o que lhe fizeram de ruim, escolhendo aprender ao invés de se martirizar com o passado. Quem perdoa quer viver o presente e seguir de modo diverso, se possível melhor do que antes.
     Das decisões que podemos tomar durante a vida, o perdão é das que mais libertam. Ele deixa a alma leve, sem o peso de sentimentos ruins como a raiva. É a maior prova de amor-próprio que podemos dar, pois é sublimando o que é negativo que aprimoramos o nosso espírito e preservamos a nossa saúde mental e física. Ao contrário, alimentando a dor, ressentindo-a, nossas vidas estagnam ou se deterioram e até adoecemos.  
    Nossa tendência natural é pensarmos em retribuir na mesma moeda ou até de forma pior a quem nos prejudicou. Somos estimulados a isso num mundo em que o perdão é considerado um ato de fraqueza, enquanto a vingança é coroada como heroísmo, justiça pelas próprias mãos. Parece imperar a Lei de Talião, que vigorava na antiguidade muito antes de Cristo, e era simbolizada pela expressão “Olho por olho, dente por dente”. Muitos preferem se igualar ao ofensor, praticando o mal, do que se diferenciar pelo bem. 
    Quando a gente rumina o que é ruim, se maltrata mais do que aos que nos magoaram. Estes costumam se blindar com forçadas amnésias ou por subestimarem seus atos.  Quando têm noção deles, não sentem a dor latejar como quem foi atingido. Em algum momento, porém, seus erros pesarão sobre suas consciências. Elas ou a vida se encarregarão de puni-los, na medida das consequências que causaram e do arrependimento que carregarem. 
    Lembro-me quando reagi a um assalto vinte e cinco anos atrás e o ladrão, já imobilizado no chão por policiais, foi chutado por eles. Fui criticada com frases raivosas ao defendê-lo, apesar dos hematomas no pulso após meu relógio ser violentamente arrancado. O assaltante, que tinha acabado de completar dezoito anos e cometera seu primeiro crime, me pediu desculpas chorando na delegacia. Foi condenado a quatro anos e meio de prisão, mas antes da sentença eu já o havia perdoado. Perdoar não é querer o ofensor impune.
     Depois disso fui agredida de outras formas – não violentas fisicamente, porém bem mais sentidas – e tenho buscado o perdão para curar sequelas e obter crescimento pessoal. Meu psicoterapeuta, que pratica a terapia do perdão dentre outras técnicas da abordagem sistêmica, considera que os atos danosos são imperdoáveis e não devem se repetir. Para ele, apenas quem os comete pode ser perdoado, se houver arrependimento de sua parte e interesse dos envolvidos em reconstruir suas relações em novos patamares, mais saudáveis.
   Em maior ou menor escala, todos já ferimos alguém, com palavras, atitudes e negligências. Costumamos ser exigentes e inflexíveis com quem mais convivemos e amamos, como se a intimidade e o amor fossem salvo-condutos e não precisassem de cuidado. Não aceitamos os defeitos alheios, mas não corrigimos os nossos. O processo de perdoar e de ser perdoado, o que inclui o autoperdão, nos faz refletir sobre como temos agido e o que temos de mudar. Se houver necessidade de perdão recíproco, por que não dar o primeiro passo?!
     A depender da gravidade do fato, o perdão pode levar meses, anos, décadas ou nunca ocorrer. Vai depender da importância do outro em nossa vida. Quando não for possível conviver como antes, mesmo perdoando, pode ser inevitável um afastamento temporário ou, se não houver vínculos, definitivo.  Se não conseguirmos perdoar certas pessoas, podemos ao menos controlar nossos pensamentos para não lhes desejar mal, caminhando para um dia sentir que o perdão veio silenciosa e naturalmente, sem percebermos.
     Perdoar não nos faz esquecer ou voltar a confiar em alguém (aliás, não se deve confiar plenamente nem em si...). Perdoar nos faz lembrar sem dor, atenuando uma cicatriz que sempre marcará nossa história. Perdoar é querer fazer um outro pacto com a vida e ter um novo tipo de crença nas pessoas – com mais tolerância, menos expectativas e um grande desejo de paz.  


Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Quem quer ter razão perde tudo, até a razão


Algumas pessoas perdem tudo para provar que têm razão. Perdem o tempo, os amigos, a saúde...Tudo pela necessidade de levar a sua opinião às derradeiras consequências do convencimento. Tudo para dar a última palavra numa discussão acalorada, com direito a tréplicas e quádruplas.  No final das contas, esbravejam, xingam e perdem a paz e a lucidez, junto com a razão. 
     Poucos são os sábios que dão o braço a torcer ou se calam mesmo quando acham que têm razão. Se veem que o diálogo se encaminha para a animosidade, dispensam o orgulho da vaidade pelo orgulho de quem preserva a sanidade comum. Para esses, escolher não ter razão publicamente é um exercício de humildade, é abrir mão de uma tola onipotência e se contentar apenas com a consciência silenciosa da razão.
    A razão barulhenta, que quer competir e estar certa, quase sempre afasta e magoa. Atualmente, a maioria das pessoas faz valer essa razão de forma irascível, como se as suas palavras pudessem penetrar na alma alheia para catequizá-la. Tempo perdido em vão, porque a razão é algo que todo mundo carrega e procura defender. A vida mostra aos poucos quem a tem de fato.
   Na internet, onde são comuns o chavão “Pronto. Falei!” e os enormes textos de desabafos, as pessoas muitas vezes acham que falam o que pensam, mas falam sem pensar. Esquecem-se que “quem fala o que quer, ouve o que não quer, como diz o ditado. Se disparam palavras como metralhadoras, deveriam estar melhor preparadas para enfrentar munição dos que também defendem com veemência suas opiniões, assim como a baixar a guarda. Mas o que se vê, em geral, é mais artilharia pesada.
    Não custa ser gentil com as palavras, elegante na abordagem e previdente quanto aos efeitos danosos de certas discussões. Há aquelas que de antemão se mostram perigosas ou inúteis, como sobre futebol, política e religião. É preciso tato para não ferir nem se deixar ser ferido. É preciso entender que sinceridade não pode ser grosseria. E que verborragia arrastada e discursos agressivos não fazem vencedores. Pelo contrário, fazem perdedores que ganham arrependimento.
     Dialogue por ideias, argumente por amor, converse para achar o fio da meada que você perdeu ou nunca encontrou –  discuta, enfim, seja pelo que for -, mas sempre com respeito e para acrescentar. Não entre numa discussão para ganhar. Você ganha se souber sair dela no momento certo, mostrando seus pontos de vista calmamente. Aliás nem entre nela se não tiver serenidade e tempo suficientes para encará-la sem alterar o seu equilíbrio emocional. 
   Uma das vantagens de envelhecer é que, diante das muitas reviravoltas da vida que testemunhamos, a gente vai abrindo mão de certezas. Nossas prioridades mudam e a tranquilidade passa a figurar dentre as principais. Passamos a não ligar para as opiniões alheias sobre nós ou a condenar sumariamente as que não nos dizem respeito, considerando somente aquelas que venham somar. Passamos a relativizar fatos e sentimentos em prol do que importa de verdade. Ter razão deixa de ter razão.
   De que adianta suar frio, o coração palpitar, o corpo tremer, as palavras saírem em descompasso com os sentimentos? Isso só vale por amor, nunca por raiva e arrogância. Se você já sentiu os sintomas físicos e psicológicos de uma discussão, virtual ou pessoalmente, sabe que é melhor escolher as palavras, trabalhar a respiração (sim, inspirar e expirar profundamente faz milagres...), não carregar no tom. Fale, mas pense, ouça, silencie e mude de opinião se quiser.
     A única razão a que você deve se apegar é a de ser feliz.

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Estamos sempre de passagem


A Páscoa -  passagem em hebraico - acontece todos os dias em nós se permitirmos. Estamos sempre de passagem, passeando por lugares, pessoas, fases, sentimentos e momentos que nos fazem bem ou mal. Cabe-nos escolher - do medo à coragem, do egoísmo à solidariedade, do ódio ao amor, da tristeza à alegria...  A forma como atravessamos nossas etapas será determinante para definir onde chegaremos e se iremos nos aprisionar ou nos libertar.
     Você pode ser cristão ou não. Pode acreditar em ressurreição ou em reencarnação. Pode até não ter religião e achar que tudo acaba com a morte, o que não é o meu caso. Penso que estamos na Terra também de passagem... Mas ainda que você considere esta vida única (e é, pois nenhuma outra possível será igual) deve, por isso mesmo, se deixar viver. Não morra em vida. Se morrer, renasça.
     Não tentar, estagnar no mais ou menos e entregar-se à acomodação da infelicidade por achar que esta é sina ou protege, não dá trabalho, é morrer aos poucos e por uma causa nada nobre. Então, sempre que preciso, recomece, reinvente-se. Dê o primeiro passo em um novo caminho que decidir trilhar, por mais difícil que seja caminhar. Sua alma lhe agradecerá. 
     Todos os dias a gente decide quem vai se tornando e o que fazer para transformar o mundo ao nosso redor: se vai subtrair ou somar, se vai se abrir ou se fechar, se vai doar ou guardar... A gente decide como encarar os fatos indesejados que nos atropelam  de repente.  Decide, por exemplo, que o fracasso não é uma derrota, mas uma tentativa que não deu certo, rumo ao êxito. 
     Cultivar a dor além do ponto, remexer e afundar feridas que já fecharam é uma maneira de recusar-se a viver.  Precisamos respeitar as nossas cascas que secaram e seu tempo de caírem naturalmente. Se restarem marcas, quando as olharmos sem a opção por sofrer elas nos lembrarão do que vivemos e não queremos repetir. Aí renasceremos. 
     Renascemos de muitas maneiras: em um abraço caloroso, um pôr do sol indescritível, uma viagem dos sonhos, uma nova atividade física ... um novo jeito de ser.  Eu renasço quando vejo o que crio ter vida própria, se fluidificando no ar feito energia boa. Como quando assisto meus filhos crescendo, com opiniões e escolhas cada vez mais firmes e independentes. Ou quando o que penso ganha forma e se perpetua em um texto ou um poema.
     A gente renasce quando crê que pode superar, mudar, aprender, ser melhor, de acordo com a nossa capacidade de compreensão, bondade, resiliência... Para cada uma de nossas várias mortes cotidianas - decepções, mancadas, frustrações, perdas -, a gente pode ressurgir mais forte e vivo, uma pessoa totalmente diferente até. 
     A gente renasce quando envelhece. Se soubermos, passamos pelo tempo - em geral avançando mas também retrocedendo para entender o que se foi -, deixando não apenas que ele nos transforme mas também transformando-o. Um dia se é criança, para depois virar adolescente, jovem, velho e então, quem sabe, voltar a ser criança (uma outra...). A passagem do tempo marca, acima de tudo, as nossas mudanças internas.
    Nossas transformações, nossas passagens, são nossas Páscoas pessoais, que podem acontecer a todo instante. 

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay



sexta-feira, 31 de março de 2017

Nostalgia de Primeiro de Abril



Que nostalgia de quando mentir era uma alegre brincadeira de Primeiro de Abril!  Atualmente a coisa é séria, triste. Há tanta farsa que todos os dias parecem ser dedicados à mentira e muitos acham desvantajoso ser verdadeiro. No Brasil, quem devia dar exemplo ilude e trapaceia para defender altos padrões de vida e distorcidos pontos de vista, lesando não somente pessoas e a economia, mas os sonhos de uma nação inteira. Vivemos em meio a grandes e nocivas mentiras que se tornaram, literalmente, indigestas. 
     Ouso discordar do genial Renato Russo, que cantava “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”. Para mim, quem se autoengana é porque quer. Sofre sim, mas não se decepciona. Pensa que é melhor assim por um tempo, pra afastar mais sofrimento e evitar embates com os outros. Assumir uma escolha pessoal, principalmente se isso implica em se desviar do caminho já percorrido, pode ser bem difícil. Exige força de vontade, além de sinceridade e autoestima. Sem isso, veste-se a couraça da mentira como proteção, mas por dentro a dor fica a latejar.
     É tentador acreditar menos em nós do que nas mentiras que ouvimos: que é melhor ser jovem, bonito, bem-sucedido, engraçado, rico... E aí, remando para subir na crista da onda e surfar com a minoria que se julga maioria, pessoas se afundam num mar poluído de rótulos com embalagens sem conteúdos. Importam-se mais em mostrar o que têm (e o que não têm) do que aquilo que de fato são, escondendo-se por trás de padrões e interesses e mascarando sentimentos. Mentem que gostam não gostando, gostam e fingem não gostar... São as pequenas mentiras cotidianas
     Deixamos de mentir apenas para nós e fazemos mal ao outro se despertamos nele interesse ou confiança a partir de características forjadas. Ainda que sem querer ou supostamente para nos proteger, a mentira alheia nos prejudica não apenas quando nos lesa moral e materialmente, mas também se nos tira o poder de decidir e de sentir. Criamos a ilusão de alguém que não existe, além de admiração ou atração infundadas. É assim que paixões, amizades, idolatrias e parcerias profissionais se desmoronam.  
     Os iludidos sabem que estão num show de ilusionismo, depositando expectativas demais em quem ilude, mesmo com as pistas dos truques à mostra. A desilusão nada mais é do que acordar de uma cegueira temporária para a mágica em que se quis acreditar. Devíamos agradecer por ela, que nos permite vivenciar desconstruções de pessoas e histórias para nos reerguermos sobre pilares sólidos. Desiludir-se permite conhecer-se melhor e tornar-se próximo da verdade possível.
     A mentira tornou-se eloquente, com manipulações ardilosas para propagar ideologias e crenças, como se os fins explicassem os meios. Abusa-se da criatividade a ponto de, numa conveniente amnésia, crer nela e fazer com que outros também. Para enriquecer, envaidecer e ter poder, mentir atrai mais e mais mentiras, incluindo suas vertentes sutis: hipocrisia e falsidade. É algo natural para quem pensa ter um propósito maior, quase messiânico, ao se passar pelo que não é (honesto, fiel, democrata, moralista...). O mitômano é um megalomaníaco com complexo de inferioridade.
     No Brasil, mentir deixou de ser desvio de caráter individual para tecer uma complexa teia de conluios e intrigas – a mentira institucionalizada -, em que declarados inimigos são cúmplices enquanto for interessante acobertarem-se. Mas a mentira tem perna curta. E, acrescente-se, rabo preso. O lado bom dessa história é que temos visto que quando um mentiroso cai, leva junto outro e outro, até que todos se vão em inevitável efeito dominó. 
     A filosofia, a história e a vida nos mostram diferentes tipos de verdade. Há aquelas relativas, a partir de diferentes versões, visões e vivências. Com a idade, nossas crenças mudam. Podemos ou não acreditar em Deus, astrologia, alma gêmea... e ter apenas uma noção diferente da verdade, sem que isso nos coloque ao lado do bem ou do mal. Algumas verdades, porém, são absolutas, incontestáveis, e exigem de nós atitudes boas ou ruins e um posicionamento contra ou a favor da mentira.
     Não existem meias-mentiras. É mentira tudo o que se fala como verdade não o sendo ou sem acreditar e sentir. A intenção e a consequência definirão a gravidade do ato de mentir, considerado até social. Pode ser atenuante querer evitar que alguém fragilizado sofra demais com a verdade, mas a mentira cruel - para obter vantagem e enganar o outro - tem todos os agravantes e é das piores formas de maldade.
     Se a falsidade ou a mentira estiverem ao seu redor te magoando e fazendo o mal, afaste-se. Não ligue se está fora dos padrões, não se envergonhe do que sente, não se esconda por trás de convenções. Respeite as suas particularidades, seja transparente, olhe no olho e aposte na sinceridade para ser feliz. Tenha coragem de ser quem você é de verdade!

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay



segunda-feira, 20 de março de 2017

Deixe o outono te desfolhar


O verão mal terminou e a gente já sente a temperatura amena e um mistério no ar. Que março carregue de vez em suas águas o que não tem razão de ficar e que deixe cair nas calçadas as primeiras folhas do outono de quem quiser recomeçar. A gente se mostrou, se excedeu, dourou a pele, ardeu em brasa e não pensou em nada, porque o calor não deixava. Mas agora, preste atenção, é tempo de transição. Novos ventos começam a soprar...
     Vá com calma, escute a sua intuição e o que esses ventos lhe dizem. Veja para onde cada um corre e não necessariamente siga a sua direção. Você pode se deixar levar ou tomar um impulso até o meio do caminho e depois seguir sozinho.  Ou precisará contrariar seus rumos e andar na contramão de tudo - dos outros, da moda e da própria razão - , fazendo de bússola o seu coração. Se ele vibrar forte, dê uma chance à sorte e vai ser feliz!
     Mas não se esquece também de raciocinar, porque sempre precisamos analisar o que fizemos ou não, para podermos de novo sonhar. Aproveite que o tempo é de desfolhar e mude, se desnude, troque de pele se preciso for. Limpe, esfolie, remove as células mortas e as impurezas que se acumularam nos últimos tempos. Renove-se e, acredite, isso lhe rejuvenescerá.
     Olhe-se no espelho de sua alma e veja o que não deu certo, do que se arrependeu ou porque se machucou. Será que você tentou de verdade todas as possibilidades de crescer, de ser feliz? Inventou, misturou, arriscou e insistiu?! Lembre-se: a felicidade não tem fórmula única, mas a vida nos dá ingredientes e temperos saudáveis, inimagináveis, para criarmos novas receitas para ela, a cada dia. Experimente, sempre, para aguçar seu paladar. 
     Regra básica para não desandar uma receita é descartar aquilo que lhe faz mal ou cuja validade venceu. Do contrário, azedará, estragará, envenenará tudo o que você tocar.  Se magoou ou traiu alguém e isso lhe doeu, arrependa-se de verdade e peça desculpas - se não pessoalmente, ao menos ore com fé ou mentalize a melhor energia que puder, e isso se canalizará para selar o bem entre vocês.
     Já se você foi magoado, apunhalado até, eu lhe entendo e lhe digo o quanto é necessário se recolher, deixar sangrar até a última gota. Mas uma hora, pra não adoecer, é preciso dar um basta, parar de triturar e purgar a mágoa e de se vitimizar. Apenas assim você vai cicatrizar e ir adiante, com ou sem quem lhe feriu. Esteja certo de que o perdão lhe ajudará. Mais do que amor ao próximo, ele significará o seu amor-próprio.
     Comece perdoando a si mesmo, se fracassou, mentiu, se omitiu, desistiu ou nem tentou. Depois pese o que lhe fala mais alto nesse momento: amor, saúde, amizade, sucesso, paz, sexo, dinheiro...?! Talvez você queira um mix de tudo isso, bem dosado pra não desequilibrar a balança e o juízo. Talvez você precise muito mais de um deles, para compensar que esteve em falta. 
     O importante é não deixar os erros se repetirem e expurgar o que estiver secando, apodrecendo, morrendo, pra nascer a sua melhor versão. Para isso, esfrie os ânimos, se entregue ao outono, se desapegue, e deixe que ele leve o que se completou, o que não te serve mais ou o que foi efêmero, que nada agregue. Além dos momentos lindos que valem lembrar, ficará o que você mais queria esquecer porque doeu fundo - e, por isso, lhe fez amadurecer. Aquele antigo sofrimento haverá partido e novas histórias terão chegado.
     Em sua sutil beleza, o outono cobrirá os nossos caminhos com folhas de vários feitios e tons – verdes, ocres, amarelas, marrons... –, desnudando árvores e toda a nossa sensibilidade.  Que ele seja bem-vindo e nos inspire com sua mágica capacidade de transformação.

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay




sexta-feira, 17 de março de 2017

Mulheres, do jeito que quiserem

     


Passei o Dia Internacional da Mulher de um modo bem típico: sentindo TPM, com  uma forte enxaqueca, uma cólica de causar contorcionismo e um temperamento entre depressivo e irritado. Como há muitos anos não sentia. Depois que meus filhos saíram pra escola, tomei um remédio e me dei o direito de voltar a dormir a manhã inteira, ignorando solenemente a data até a metade do dia. 
    Quando voltei a mim na medida do possível - porque uma metade minha me abandonara momentaneamente -, vi o batalhão de mensagens e notícias invadindo o celular e a TV. Uma chuva de rosas, corações, galãs embrulhados para presente e palavras dourando a pílula enalteciam as mulheres e seus diversos papéis na sociedade. Fiquei perdida, sem me identificar com nada.
      De um lado, um discurso feminista de empoderamento e contra o ´bela, recatada e do lar`, nos retratando como mulheres-maravilhas infalíveis ou o sexo forte Do outro, um discurso presidencial hipócrita e machista exaltando o papel doméstico feminino, de cuidar dos filhos e do marido e de gerir o orçamento da casa a partir dos preços em supermercados. No meio, propagandas vendendo produto femininos com descontos imperdíveis.
       Acho que a data é histórica, política, de reflexão muito mais do que de celebração, e ainda necessária em tempos de violência e desrespeitos contra os corpos e direitos das mulheres no mundo. Mas todo 8 de março é a mesma coisa: muita falação, comércio, espetáculo e pouca ação. De todos os lados, falta tato e organização para mudar o que é preciso, seja a falta de isonomia salarial para o desempenho das mesmas funções, seja a difusão de estereótipos de gênero, seja a eleição de mulheres que nos representam.
      Certo que há força bruta, fanatismo religioso e poder econômico jogando pesado contra nós, além de alienação e cinismo dos que fingem não enxergar as desigualdades e também dos que teimam em afirmar que homens e mulheres são iguais.  Somos absolutamente diferentes, nos aspectos psicológicos e biológicos, e devemos sim ter tratamentos diferenciados. Como pregava Rui Barbosa, igualdade é tratar desigualmente os desiguais. Só assim serão respeitadas particularidades e assegurados os direitos individuais.
     É preciso ajustar o foco e acertar na mira do que importa. Do contrário, teremos sempre um abismo entre o discurso e a prática. De nada adianta o patrulhamento agressivo e sarcástico de algumas feministas criticando indistintamente os homens e, pior, outras mulheres que não se enquadram nos padrões modernos, politicamente corretos. De nada adianta nos classificarem como independentes ou submissas, como fortes ou frágeis, espertas ou bobas, rodadas ou recatadas, do bar ou do lar...
     “Que a liberdade seja a nossa própria substância” não era a bandeira de Simone de Beauvoir?! Pois então, não tentem nos encaixar em rótulos ou nos comparar umas com as outras. Apenas nos reconheçam como somos: diferentes na casca e na essência, seres humanos imperfeitos, com virtudes e defeitos. Nada de heroínas, deusas ou santas. Podemos ser o que quisermos: extrovertidas, tímidas, sérias, engraçadas, casadas, solteiras, profissionais, donas-de-casa, com ou sem filhos...
     Nossas ambições e humores mudam, de acordo com os anos e os hormônios. É difícil sentir os efeitos pré-menstruais ou os da menopausa, mas imagino que também não é nada fácil para os que convivem com a nossa bipolaridade nesses dias. Regra geral, tirando a questão do bom ou mau caráter de cada um, não somos melhores nem piores do que os homens. Aliás, eles também têm alterações hormonais e emocionais que não se permitem discutir. Já ouviu falar de andropausa?!
     Os homens estão aprendendo a ser e agir de modo diverso do que todos, inclusive suas mães, lhes ensinam (sim, o machismo pode partir das mulheres...). Novos direitos para eles, como licença-paternidade ampliada e guarda compartilhada, significam novas vivências para as mulheres. Eles devem ser incentivados a invadir a praia feminina. Não precisam ouvir que não têm jeito para cuidar de um bebê, fazer compras de supermercado, opinar na decoração da casa, cozinhar...
    Claro que a situação da mulher é infinitamente mais desfavorável e desconfortante, envolvendo questões que devem ser esmiuçadas e reivindicadas.  Mas o sexismo e o preconceito dentro de movimentos feministas atrapalham a luta e provocam afastamento entre homens e mulheres. E entre as próprias mulheres, que, cada vez mais, desejam ser do jeito que quiserem. 

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Quando a gente se sabota



Sabotagem não é apenas estratégia de inimigo para prejudicar quem detesta. Longe de se esconder por trás de planos maquiavélicos, ela pode partir de nós mesmos e ir minando nossa felicidade com atitudes simples mas repetitivas, de forma inconsciente ou não.  Ela começa se apoderando de pequenos momentos - prazeres ou responsabilidades - até tomar conta da vida inteira. 
   Prorrogarmos a duração de etapas e relacionamentos vencidos ou a solução de problemas e conflitos incômodos, enquanto postergamos o que podemos fazer hoje para o dia seguinte e depois para o outro e outro. Vivemos, sem motivos justificáveis, uma sucessão de pendências e adiamentos. Adiamos, principalmente, o enfrentamento do trabalho que dá ser feliz. 
     Nos sabotamos quando nos recusamos a enxergar o que está a um palmo de nosso nariz, sobre a vida, os outros e nós. Custamos a entender que a felicidade, tirando os momentos afortunados, quase sempre não vem de graça. Vem, isto sim, de querer.  A gente sabota o nosso querer quando não enfrenta tudo o que é preciso para ter ou fazer o que deseja, seja por medo ou preguiça ou para não desagradar alguém. 
      Ah, o medo... Que concorrência desleal!  Ele é nosso maior sabotador, simbolizando um complexo de inferioridade. Enquanto o cultivarmos diante do que está por vir, ele esmagará a nossa força interior, por maior que ela seja. Precisamos parar de ter medo da felicidade, de ter medo de que algo ruim aconteça, de ter medo de saber a verdade, de ter medo do que os outros vão pensar...
    Até  respeitarmos o que de fato nos faz bem, nos importamos em demasia com os outros e nos violentamos. Permitimos que pessoas nocivas invadam o nosso espaço ou suguem a nossa energia com seus problemas, conselhos ou comentários negativos. Dizemos sim querendo dizer não e vice-versa.  Na maior parte do tempo, fazemos o que não queremos e deixamos de fazer o que queremos, engolindo a seco a frustração. 
     Sabotamos nossos sonhos deixando-os no plano da irrealidade.  Não nos atrevemos a colocá-los em prática para evitar decepções, já especulando o pior. Assim nunca poderão dizer que deram errado... Ou então iniciamos novas empreitadas, mas desistimos após as primeiras dificuldades. Como se não fôssemos dignos, capazes ou fortes o suficiente de alcançar o sucesso ou de resistir ao fracasso. 
     Alguns fogem de seus grandes amores. Outros ignoram as suas verdadeiras vocações. Muitos se atrasam para compromissos importantes. E por aí vai. A autossabotagem  pode acontecer de várias formas, mas sua origem tem sempre a ver com baixa autoestima e falta de autoconfiança e amor-próprio. Por isso, nos acostumamos a inventar pretextos, arrumar dificuldades, anestesiar dores e mergulhar em ilusões. 
     Somos os responsáveis por sair das armadilhas que criamos, por abrir os cadeados de nossas correntes. Um bom começo é enfrentar nossos medos e deixar de ter pensamentos e comportamentos tóxicos a eles relacionados. Quando eles vierem, temos logo que substituí-los por outros que nos motivem. Ainda que isso assuste e canse no início, ainda que a gente caia depois, a confiança e a coragem nos fortalecerão a tentar até conseguirmos. 
    Quanto mais deixarmos de nos proteger da infelicidade, mais nos aproximaremos da felicidade. 


 Imagem: Pixabay
Texto: Nadja Bereicoa


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Precisamos dar tempo ao tempo


O tempo é um grande amigo e sábio, acredite. Tem fama de cruel e implacável, mas o que apenas faz é passar serenamente e nos transformar, se deixarmos para melhor. Com ele, quase tudo se aquieta, se ajeita, se resolve. Ele mostra um desfecho certo para nossos dilemas e dificuldades. Ao invés de brigar com ele, devemos tê-lo como um aliado.
     Se o tempo passa rápido ou é mal aproveitado, depende de nós. Às vezes temos que correr contra o relógio para dar conta do que necessitamos e queremos. E aí exageramos. Quem nunca pensou como o dia poderia ter trinta horas?! No fundo, porém, precisamos é dar tempo ao tempo - para que as sementes brotem, os ressentimentos cessem, as feridas curem, os ciclos se fechem e as portas se abram.
     Com o tempo, a gente percebe que deve respeitar a natureza das coisas, das pessoas, dos dias. Há tempo de sorrir e tempo de chorar,  tempo de se esconder e de se mostrar, tempo de agir e de esperar. Esperar - bem diferente de se acomodar - nos ensina a ter paciência. Disso vem a esperança, esse sentimento tão próprio do tempo. 
     Por mais descrentes que estejamos, precisamos lembrar que do breu da noite sempre virá a claridade do dia. Cada novo amanhecer, faça sol ou chuva,  poderá nos despertar para uma nova ideia, uma surpresa, um novo tempo. O maior milagre é que o tempo revolve tudo em nós. No exato momento em que se torna passado, o presente dá lugar ao futuro. Somos essa mistura de tempos.
     O tempo é engraçado e sábio. Nos prega peças e nos dá lições, e isso fica claro nas histórias que se repetem,  se invertem, se apequenam ou se agigantam.  Pelos ares dos dias, meses e anos ele carrega nossas ações, palavras e pensamentos, trazendo-os de volta feito bumerangues em seus ventos. O tempo parece brincar, quando nos pune, nos recompensa ou simplesmente se esvai. Criança vira adulto, adulto vira criança... 
     De repente,  vemos como o tempo voou e então nos tocamos que estávamos distraídos ao viver. Sim, porque é preciso atenção ao que o tempo nos oferece e ao que passou (bons e maus tempos). Ele leva e traz  pessoas e momentos importantes para nós, deixando suas melhores marcas: as lembranças e a saudade. O tempo pode passar e, mágico, ficar para sempre.
   Ele leva o viço de outrora, mas, se permitirmos, nos traz uma beleza especial: a consciência de sermos melhores do que antes. Ele mostra o que nos cai bem - uma roupa, uma atitude, uma companhia... -, e nos afasta do que nos faz mal. Por experiência ou intuição, uma hora a gente aprende a não perder mais tempo com o que não vale a pena ou não nos merece. A gente aprende a ter sabedoria para viver.
     Acerte os seus ponteiros com o tempo e permita que ele seja seu mestre e conselheiro. Enquanto ainda há tempo! 

Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Dê férias a si mesmo


Precisamos de férias – no trabalho, na rotina, nas obrigações – para tomar fôlego e iniciar ciclos, com corpo e mente leves e diferentes perspectivas. Devíamos fazer mais pausas em várias épocas, para desacelerar ou nos aventurar, mas aguardamos o tempo programado de sermos felizes no calendário. Janeiro é quase o mês oficial para isso. Novo ano, verão, proximidade do Carnaval...  Tempo de descontrair o visual e ter coragem de experimentar novos cenários, perfumes, sabores, emoções. Natural pensar em pôr o pé na estrada.
     Viajar pode nos levar mais longe do que imaginamos. Alarga horizontes e sorrisos, abrindo caminhos dentro de nós mesmos para que a gente se conheça de um jeito despojado. Viajar ensina a nos livrarmos de preconceitos, medos e vaidades, para aproveitar o que o nosso destino tem de melhor, como sempre deveríamos agir na vida. É época de esquecer-se até de noite de chinelos, roupas de banho, cabelos duros de sal ou cloro e a cara lavada, impregnando-se de cheiro de mato ou maresia.
     Ainda sinto o vento e a areia batendo forte no meu rosto e o coração disparado no peito, ao despencar nas montanhas-russas naturais do Rio Grande do Norte, de onde voltei de férias. Vivi dias de aventura com minha família, chacoalhando em buggy, lancha, barco e balsas por lindas praias, dunas, falésias e rios. Aprendi com esse Brasil brasileiro onde o sotaque e tantas diferenças culturais falam alto. Foram dias alegres e eternizados na retina da memória, porém cansativos (como em toda viagem que se preza!).
     Ao fazer as malas, a gente deposita nelas expectativas e a quase obrigação de ser feliz.  Na volta a bagagem sempre é mais pesada, com as lembranças maravilhosas, o que não conseguimos conhecer e as intercorrências indesejadas.  É muito bom partir, mas voltar para casa ganha um estímulo especial após uma viagem, por melhor que tenha sido o hotel e o lugar aonde fomos. E aí, enquanto a gente põe as roupas para lavar, já pensa no próximo destino.
     A verdade é que não é preciso pegar um ônibus ou um avião e atravessar centenas, milhares de quilômetros, para curtir merecidas férias. É provável que haja dezenas de atrações turísticas e culturais bem perto de nós, sem que tenhamos curiosidade para visitá-las. Basta vontade para explorarmos nossas cidades e seus arredores como ávidos turistas. Mas temos o hábito de nos deixar fascinar primeiramente pelo que está longe ou difícil, esquecendo locais e atitudes ao nosso alcance.
     A gente também se esquece que férias são para descanso. Já parou para pensar desde quando você não faz, simplesmente, nada? Nada é modo de falar, num mundo de tantos compromissos profissionais, domésticos e sociais envoltos em estresse, agitação e modismos.  Não fazer nada é fazer o que não importa aos outros, mas é tudo o que você mais quer: dormir dez horas, ficar na cama o dia inteiro lendo livros da mesa de cabeceira, refletir longamente ou fazer um spa de beleza no chuveiro. Por melhores que sejam nossas companhias, às vezes o que precisamos é nos mimar e amar. 
     De vez em quando, é bom vivenciar o mais absoluto ócio, o chamado ócio produtivo, daqueles que nos dá inspiração para a vida, que nos faz agir com menos condicionamentos e mais calmaria e reflexão.  Investir em nosso interior, em quem de fato somos e no que queremos, significa fazermos o que mais gostamos e deixarmos de lado tudo a que nos forçamos fazer. Sem tanta pressa, sem nos envolvermos desgastadamente com questões cotidianas e aborrecimentos.
     Temos a mania de achar que somente aproveitamos férias e folgas se preenchemos todas as nossas horas com viagens e lazer, voltando exaustos para o trabalho e a rotina.  Algum tempo livre deve ser exatamente isso: livre. A liberdade está a nossa espera, para cantar, ler, escrever, meditar ou o que der na telha...  Podemos fazer isso sozinhos, que é uma boa maneira de conhecermos a pessoa que deveria ser a nossa melhor companhia.
     Para ter um novo fôlego diante da vida e ser feliz, cobre-se menos e permita-se mais. Dê férias a si mesmo!


Texto: Nadja Bereicoa
Fotos: Pixabay (1)
           Nadja Bereicoa (2)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

De presente, a felicidade



Em clima de muita harmonia, paz e alegria, celebrei o último Natal em minha casa, pela primeira vez, ao lado de marido, filhos, irmãos, cunhados e sobrinhos.  O aniversário de nascimento de Jesus Cristo foi um momento especial de reflexão e emoção, de celebrar o amor e sentimentos que a ele nos remetem, como tolerância, união, fraternidade e, principalmente, perdão. O ano árduo que tivemos clamava por mais simbolismos e menos consumismo.
    Ao invés de produtos de shopping, meus presentes a todos foram irreverentes ´kits de felicidade`, inspirados em algo que recebi anos atrás. Acompanhados de um texto que escrevi, os kits eram compostos de oito itens que servem como metáforas ou dicas de como buscar a felicidade, essa conquista que tanto depende de nós. De modo literal ou literário, um saco, um fitilho, um bombom, um bloco para anotações, um lápis, uma borracha, um elástico e um chá de camomila renderam esta crônica natalina, que divido com você agora.
  Comecemos pelo bombom, porque doçura é imprescindível na vida e chocolate - já está cientificamente provado - traz alegria e é quase uma unanimidade em termos de preferências gastronômicas. Você pode até fazer rígidas restrições ao açúcar na sua dieta, mas nunca, nunca, deixe de salpicá-lo no seu dia a dia.  Gentileza, solidariedade, ternura, romantismo e sorrisos tornam as nossas atitudes e relações mais doces num mundo por demais amargo.
     Quanto ao lápis e ao bloco, minha sugestão é para que escreva, ainda que para si mesmo, sobre o que tem vivido ou observado. É uma terapia, perceba aos poucos. Arrisque uma poesia, deixando-a fluir. Enumere, por exemplo, as coisas boas que lhe aconteceram, especialmente a saúde, sempre agradecendo a Deus ou a alguma energia ou pessoa que lhe ajudou.  Liste também seus sonhos, ideias e metas, lembrando que muitos não se concretizarão por algum motivo. Foi assim em 2016?! Não se culpe! Podemos assumir responsabilidades, mas não culpas (elas são pesos injustos...).
     A melhor escrita, tome nota, é a da vida. Temos incontáveis páginas em branco para criar histórias ou reescrever as mesmas, com cenários, personagens e capítulos inéditos. Para isso, nada melhor do que um ano novinho em folha. Podemos usar a borracha do perdão para apagar a maioria das mágoas e erros do passado. Dos que não desaparecerem, uns deixarão marcas quase imperceptíveis e outros, com tinta indelével, fortes cicatrizes. Mas uma hora precisamos virar a página e seguir, orando para que dores e ressentimentos passem logo, de preferência ao mesmo tempo.
   Os momentos ruins servem para ser enfrentados e nos proporcionar crescimento espiritual. O elástico, que se estica, se flexibiliza e volta ao seu estado normal, representa a capacidade de superação, adaptação e resiliência que devemos adquirir diante de problemas, frustrações e divergências que se apresentam. A elasticidade exemplifica também a nossa tolerância com os outros, ainda que discordemos veementemente de seus pontos de vista.
     Os seres humanos são diferentes, imperfeitos e surpreendentes, para o bem e o mal, o que torna a vida tão fantástica quanto difícil. Conflitos e crises sempre existirão, mas não serão resolvidos se guerrearmos, e sim se buscarmos o entendimento. Por isso, na hora de ânimos exaltados, pense bem para evitar arrependimentos. Respire fundo, conte até dez, beba um chá de camomila e deixe a raiva passar. A tranquilidade vale muito mais do que a razão numa discussão...
   Um saco transparente e um fitilho dourado que envolveram o kit também têm significados poéticos.  A embalagem é onde armazenamos com carinho o que de melhor fizemos, presenciamos e sentimos – nossas melhores memórias e virtudes, nossos mais caros presentes. O longo laço representa o bem mais valioso que temos: nossos afetos. Família e  amigos são os belos adornos de nossas lembranças pois ajudaram a construir nossas histórias. Eles valem ouro e são para a vida toda!
     Meu presente foi uma brincadeira apenas para inspirar. Não existem fórmulas de felicidade, tão cíclica como nossas necessidades e prioridades. Com experiências particulares, as pessoas criam as suas próprias receitas, que às vezes desandam. O certo é que o amor é uma chave-mestra para todos. E para que a felicidade seja verdadeira, deve vir da vontade genuína de nos fazermos felizes e aos outros também. Perdoar é a prova mais sublime de amor ao próximo que Cristo nos legou, além de ser um ato de amor-próprio que nos cura de sofrimentos causados por outros, aceitando-os como parte do propósito da existência: aprender. Ser feliz é um aprendizado.
    Em meio a kits de felicidade e mesa farta, orações e abraços, sorrisos e lágrimas, meu maior desejo para a noite afortunada de Natal e para 2017 foi por mais corações serenos e abertos para o perdão e o amor, em minha família e no mundo. Desejo que consigamos perdoar (não à toa doar integra essa palavra...) e ser perdoados, sem mágoas machucando a alma. Que comecemos perdoando a nós mesmos, por fraquezas, omissões e excessos. Somente assim poderemos nos dar de presente a felicidade!



Texto: Nadja Bereicoa
Imagens: Pixabay 


sábado, 15 de outubro de 2016

Pílulas milagrosas de infância

A infância, em sua essência, bem que podia ser armazenada pela Ciência, em fórmulas naturais para vitaminarmos nossos dias. Uma drágea e a mais sisuda manhã se iluminaria... Ingredientes como alegria, inocência, curiosidade, perspicácia, energia e fantasia seriam receitas milagrosas capazes de transformar a vida, com leveza e humor;                Como isso não acontece, podemos resgatar as crianças que fomos do fundo de nossas lembranças e aproveitar o convívio com aquelas que nos cercam, com lógica  e sentido próprios que surpreendem a nossa razão e despertam meninos e meninas em nós.
     Em homenagem ao Dia das Crianças, rememoro passagens engraçadas e poéticas protagonizadas por meus filhos quando bem pequenos. Em poucos anos eles deixarão a infância e certamente gostarão de saber um pouco do que pensavam, se divertindo e se emocionando.  Por isso, enumero algumas de suas historietas, quase anedotas, em forma de pílulas escritas. É a minha maneira de encapsular e ingerir o que a infância tem de melhor.

*** Quase, quase adolescente ***

Com cinco anos e meio a menos que sua extrovertida prima, minha filha sempre viu nela um referencial. Chegaram a brincar juntas de boneca. Mas com as transformações no corpo e no comportamento de Luíza, as brincadeiras escassearam. Até Juju estranhar e perguntar, aos cinco anos:
        - Mamãe, o que é mesmo ser adolescente? A Luíza já é?!
     Respondi que, aos 10 anos, ela era uma pré-adolescente e que depois entraria na adolescência, que é o período em que a criança vai, aos poucos, se transformando em adulto, o que terminava por volta dos 18 anos.  Júlia ouviu com atenção e balbuciou um “ah, tá...”. Meses depois me perguntou do nada:
        - Mãe, eu sou pré-pré?
         Não entendi e quis saber “como assim?!!!”.
        - Eu quero saber se eu já sou uma pré-pré-adolescente?!!!
         Definitivamente, ela era...

*** Duas figurinhas ***

Gabriel tinha quatro anos e ainda continuava a falar no fofo ‘bebezês’ que nós pais até corrigimos mas adoramos ouvir. Em um dia, inspiradíssimo, misturou tantos “Se eu sesse”, “Quando eu tinha fazido”, “A aula de psicomocicidade” que eu lhe falei
- Filho, você não existe...
Gabriel, que estava aprendendo sobre folclore brasileiro e seus personagens na pré-escola, questionou-me sério:
- Ué, mamãe, quer dizer que eu sou uma lenda...?!!
Quando ia explicar, sua irmã esclareceu por mim:
- Não,Biel!!! Quer dizer que você é uma figura!!! Mas não é dessas de colar em álbum que a gente coleciona não, viu?!!! Você é uma figura rara, dessas que a gente não acha nunca...

*** Abre-te Sésamo ***

Com ares de independência, aos 5 anos de idade, minha filha comunicou-me radiante:
- Mamãe, já terminei de fazer o trabalhinho de casa!
- Que bom, filha! Então guarde-o na pasta da escola, tá?
Sentada em sua cama, arrumando outras coisas, notei que ela travava um verdadeiro embate com a pasta sem conseguir abri-la, já nervosa, suando e emitindo grunhidos do tipo ai, ui, aanhh.... Foi quando intercedi:
- Júlia, você tem que puxar com jeitinho o fecho ‘eclair’...
Em sua lógica de criança, ela reagiu indignada:
- Mas ele não abre, mamãe!!! Só fecha...  Aliás, tinha que se chamar Abre éclair!!!

*** A melhor opção ***

Depois de mais um de seus pitis ensandecidos por nada, meu filho levou uma bronca de mim e me ameaçou, dando início ao seguinte diálogo:
- Se você brigar comigo de novo, eu vou chorar!
- Pode chorar, que não ligo. Se você faz coisa feia, mamãe tem que brigar...
Então, se você brigar comigo, eu vou gritar feito ma-lu-co!
- Aí eu vou ficar triste e aborrecida e te deixar de castigo, sem brincar de carrinhos...
Então eu vou me soltar da cadeirinha e fugir pra rua!!!
- Nunca faça isso, filho!!! Alguém malvado pode te pegar e te levar para bem longe e você nunca mais vai ver a mamãe, o papai e sua irmã!
Gabriel emudeceu um minuto, como se pesasse a situação, para voltar à primeira opção:
- Se você brigar comigo, então eu vou só chorar...   
  
*** Sonhando acordada ***

Um belo dia, com cinco anos, Júlia passou a adotar precocemente um hábito típico dos adolescentes: fechar a porta de seu quarto. Sem pedir licença, pois achava que crianças pequenas não deviam ficar trancadas, entrei para saber o que estava fazendo e a flagrei deitada na cama maravilhada, olhando pro teto e rindo. Como se visse algo secreto e surpreendente, talvez arco-íris, duendes, sabe-se l...
     - O que foi Juju? Tá pensando em quê?, perguntei.
     - Estou só sonhando, mamãe...
     - Ué, sonhando sem dormir?!!
     - É que eu gosto de sonhar acordada...
     Deixei-a em seus sonhos, mas com a porta aberta, pois achava que criança com aquela idade não devia ficar trancada. Dali por diante passou a ser costume encontrá-la no quarto com a porta fechada e, ao abrí-la, surpreendê-la andando de um lado a outro, sentada ou mesmo parada em pé com ar contemplativo. A resposta era sempre a mesma:
- Tô sonhando, mamãe...
     Enquanto isso, aumentava enormemente a sua criatividade. Já alfabetizada, escrevia e ilustrava as próprias histórias, fazia dobraduras e outras invenções mirabolantes e muito coloridas. Engraçado era que produzia suas artes com a porta de seu quarto aberta. Se esta estivesse fechada, eu já sabia: “Ela está pensando!”. Mesmo assim, sempre abria a porta. Até ela esbravejar:
- Pôxa, mamãe, assim você acaba com o meu laboratório!!!
Disse-lhe que não tinha entendido...
- O meu laboratório de sonhos, oras!!! Meu quarto é o meu laboratório de sonhos!!!
Depois disso, passei a respeitar a privacidade de minha pequena cientista e artista-mirim. Para que ela fizesse muitas experiências em seus invisíveis tubos de ensaios, misturando lindos sonhos para ver em que iria dar a realidade...

*** Para sempre criança ***

Assim como a irmã – e suponho a maioria das crianças -, meu filho teve, aos 8 anos, sua fase de temor em virar adulto. Com nostalgia antecipada, choramingava que queria brincar e ser pequeno para sempre, tal qual Peter Pan e os meninos da Terra do Nunca. Pragmático, constatou e decidiu um dia:
- É muito ruim ser adulto! Tem que trabalhar, pagar contas, ir ao supermercado, cuidar das crianças, resolver as coisas da casa... Eu não quero casar! Quero morar com vocês para sempre...
Já aos nove anos e pelo menos dez centímetros maior, quando deitava em sua cama à noite, me perguntou como e quando as crianças cresciam, já que ele não conseguia perceber. Simplesmente notava que suas pernas e braços se alongaram e que seu corpo já era quase do tamanho da sua cama.
Expliquei-lhe que isso acontecia de forma imperceptível, todos os dias, mas que os médicos dizem que o nosso crescimento – tanto dos ossos como dos músculos – é maior durante o sono, porque fazemos repouso absoluto.
- Mamãe, eu tenho medo de um dia dormir e acordar adulto!
Tranquilizei Gabriel que isso não aconteceria de um dia para o outro, mas sim aos pouquinhos e que ele teria muitos anos para aproveitar como criança. Fiquei ali, deitada a seu lado, sentindo sua inquietude adormecer e agradecendo pelo tanto que ainda assistiria a sua infância despertar. 
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Texto: Nadja Bereicoa
Imagem: Pixabay